quinta-feira, 1 de março de 2007

Há muitas formas de elevar o que julgamos conhecer ao desconhecido (escrevo elevar porque me parce uma operação que passa as coisas ou os seres de um estado fixo a uma vibração critativa). Exaltar as descontinuidades radicais escondidas nas supostas sequencias causais de qualquer frase, texto ou imagem é, entre outras, uma das operações que nos permite atingir esse ponto mais instável e mais fértil de não-saber. A via parece ter sido aberta por Lautréamont:
"Pela primeira vez [com ele], a pesquisa das metáforas conduziu à produção de metamorfoses cuja estranheza se explica pela destruição de toda a imagem de passagem, de todo o intermédio, pelo salto brusco do pensamento ou do sentimento mais simples para uma realidade assobrosa que é a sua longínqua consequência" (Blanchot).
Imaginar que entre duas coisas quaisquer há uma abertura vazia e desmedida é tornar infinitas e imprevisíveis as relações possíveis nesse espaço. Longínqua consequência, aproximação sonora ou efeitos de cor têm assim a mesma força de aproximação e a mesma capacidade de respeitar o afastamento.

IDEIA DO AMOR

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.


Agamben___Ideia de prosa